Seu alimento do futuro será cultivado com águas residuais

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  • 2017/06/09     Dresden, Germany

    Image: istockphoto/fotogigi85

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    Por Serena Caucci e Kristin Meyer*

    Em um mundo cada vez mais escasso de água, não há dúvida de que a reciclagem da água já utilizada precisa ser tornar algo normal. Parte disso implicará, inevitavelmente, o uso de águas residuais para ajudar a cultivar os alimentos que necessitamos. Mas será que algum dia nos sentimos confortáveis com o uso de águas residuais para a produção de alimentos?

    A realidade é que isso já está acontecendo, mas é preciso fazer mais para manter as comunidades seguras dos perigos de utilizar águas residuais não tratadas.

    O uso de águas residuais para a produção de alimentos é sobretudo uma questão de gestão de escassez de água e de custos socioeconômicos. O crescimento exponencial da população e as mudanças climáticas comprometeram seriamente a disponibilidade de água em muitas regiões, do Oriente Médio a África, ao Sudeste Asiático e à América Latina. As comunidades locais precisam encontrar urgentemente soluções para o problema da crescente escassez de água.

    Se utilizadas corretamente, águas residuais podem fornecer nutrientes importantes para o crescimento de plantas e agir como um substituto de fertilizantes minerais. Entretanto, elas somente devem ser usadas para fins agrícolas após tratamento. Infelizmente, a realidade é bem diferente em muitas regiões do mundo.

    As políticas agrícolas e hídricas não abordaram suficientemente as ameaças inerentes à utilização de águas residuais não tratadas para irrigação. Frequentemente, materiais perigosos sob a forma de metais pesados, contaminantes orgânicos, patógenos ou bactérias resistentes a antibióticos podem ser encontrados em águas residuais. Estes acumulam-se em solos, plantações e águas subterrâneas, passando assim para a cadeia alimentar.

    Se evidências de ameaças à saúde humana e ao meio ambiente estão prontamente disponíveis, por que tantos agricultores ainda utilizam águas residuais não tratadas para fins de irrigação?

    Em países em desenvolvimento, o uso de águas residuais não tratadas tem uma grande vantagem: a gratuidade. Isto significa que os agricultores as utilizam para a irrigação de colheitas sem adotar as precauções necessárias para evitar riscos à saúde pública.

    Atualmente, as águas residuais irrigam entre 1,5% e 6,6% das terras cultiváveis em todo o mundo; cerca de 10% dos alimentos do mundo são produzidos utilizando essa prática. A verdadeira extensão do uso ilegal de águas residuais não tratadas para a agricultura é, contudo, desconhecida.

    O Valle del Mezquital no México ilustra perfeitamente os problemas envolvidos. A urbanização rápida e instalações de tratamento inadequadas levaram os agricultores do vale a usarem águas residuais não tratadas da Cidade do México para fins de irrigação. Por mais de um século, tal prática ajudou a produzir safras comercializáveis a baixos custos.

    Mas esses benefícios vêm ao custo da saúde da população. O uso de água contaminada para o cultivo de plantações resultou em doenças gastrointestinais severas e câncer na comunidade local. Bebês, crianças pequenas, mulheres grávidas, idosos e pessoas cujos sistemas imunológicos estejam comprometidos devido ao HIV/AIDS são especialmente vulneráveis.

    Não é por acaso que o Valle del Mezquital tem a maior incidência de câncer de rim na região, bem como a ocorrência de helmintos (vermes parasitas) ou infecções por giárdia em crianças.

    Somente por meio do desenvolvimento de estratégias de saneamento ecologicamente corretas foi possível atingir a redução das cargas de poluição da água, conservando os benefícios dos nutrientes. Desde 1999, plantas de usinas de águas residuais locais foram construídas, assim como novos pântanos, com resultados satisfatórios de qualidade d’água. Mas os povos do vale ainda estão reticentes sobre os benefícios das águas residuais tratadas.

    A experiência de países industrializados mostra que mesmo tecnologias avançadas de tratamento de águas residuais enfrentam dificuldades para abordar todos os riscos. Sabe-se que a presença de poluentes emergentes e bactérias resistentes a antibióticos em águas residuais escapa ao tratamento convencional de águas residuais.

    É desnecessário dizer que esses contaminantes são, mesmo em baixas concentrações, uma séria ameaça à saúde humana. Precisamos de tecnologias e acompanhamento estruturado para garantir respostas rápidas a fim de manter as comunidades seguras.

    Não há como evitar o fato de que nossa comida no futuro será cultivada usando água residual. Comunidades locais como aquelas no Valle del Mezquital têm um limite do que podem fazer para se protegerem; regulamentos e políticas governamentais devem ser avaliados juntamente com evidências científicas do risco que as águas residuais podem representar à saúde humana. Só então o uso seguro de águas residuais na agricultura poderá estimular o desenvolvimento sustentável em nosso mundo escasso  em água.

    *Serena Caucci é pesquisadora-assistente na Unidade de Gestão de Resíduos e Kristin Meyer pesquisadora-assistente na Unidade de Desenvolvimento de Capacidade e Governança da Universidade das Nações Unidas (UNU-FLORES, Alemanha).

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